Há
um estigma que pesa sobre o serviço público brasileiro. Não
importa a área, de alguma maneira você já ouviu alguma reclamação
sobre este tipo de serviço no Brasil. O serviço estatal deveria ser
modelo e principal meio de acesso aos direitos básicos e exercício
da cidadania para o povo. O investimento da população em forma de
impostos, idealmente, seria retornado para a população em forma de
serviços que garantiriam desenvolvimento da sociedade e evolução
social. Mas não vivemos num mundo ideal e nosso sistema político e
econômico é construído de forma a usarmos o mínimo possível os
serviços públicos. Instituições privadas concorrem numa guerra
constante em busca de crescer e enraizar seu nicho de mercado no meio
em que estão inseridas.
Os
serviços públicos mais básicos, como saúda, educação e
desenvolvimento social passaram a ser usufruídos somente pelas
pessoas que não tem, de maneira alguma, condições de pagar por
eles. Numa estigmatização história e constante, os serviços
básicos públicos foram enfraquecidos financeiramente e
motivacionalmente de forma que se instaurou uma “cultura de
enfraquecimento”. Uma nuvem de desmotivação cobre todos os
setores e qualquer servidor entra no seu expediente de trabalho já
pensando na hora em que vai embora e no salário que receberá no fim
do mês. Ser um servidor público nas áreas básicas mais parece um
enfado que uma profissão. Em qualquer órgão público, é possível
encontrar aqueles servidores que não trabalham mais de 6 horas das 8
que são devidas. Muitos passam 4 horas fazendo o mínimo possível
pra dizer que ainda estão em atividade. Os salários todos bem
compatíveis com o mercado mas de alguma forma, estes servidores não
estão animados a executar algo que faça a instituição pública
avançar e crescer.
Acho
que antes de falar sobre a qualidade do serviço em si, eu deveria
trazer a tona a questão cultural que cerca todo o ambiente estatal.
É comum você conversar com algum jovem que passou naquele concurso
concorrido e agora está animado para utilizar toda a sua força de
trabalho para fazer a diferença e ser exercer um serviço que faça
a diferença naquele meio e na sociedade mas, já nas primeiras
semanas são recebidos com um banho de água fria ao ver que para que
ele possa trabalhar de forma pacífica, ele terá que se adaptar a
cultura local. Vai até trabalhar todas as 8 horas, executar os
serviços no prazo e se mostrar um bom profissional e ético mas, por
estar mergulhado numa cultura trabalhista mais relaxada onde ele pode
obter vantagens como sair mais cedo hoje sem que isso seja um
problema, ele vai se adaptar e entrar em equilíbrio com o todo. É
natural.
Minha
experiência com o serviço público
Faz
um tempo que estou doente. Na fase em que estou, não posso me dar ao
luxo de pagar uma consulta particular (O que também não é lá
essas qualidades toda). Fui ao posto de saúde do meu bairro e tendo
que chegar antes do posto abrir pra pegar uma vaga, consegui ser
atendido. Até aí tudo bem, (Tirando o constrangimento de ter que
falar com um médico tendo dois estudantes de medicina olhando pra
mim como um rato de laboratório). Pedi uns exames, fiz meu cadastro
com o cartão do SUS para obter estes exames. O que parecia estar
tudo certo, após 1 mês, nada de resultado. Resolvi ir ao posto
perguntar sobre os exames. Mandaram-me ir a uma sala fazer o cadastro
(O que? Eu ainda nem estava cadastrado no sistema mesmo tendo
entregue toda a papelada que eles pedem?). Fui, com simpatia e pedi
ao rapaz pra ele fazer meu cadastro. O “novo” sistema
informatizado do SUS me deu um ar de esperança de que meus exames
finalmente sairiam mais rápido (Nesse momento eu já estava curado
daquele problema e já estava precisando de outra consulta pra outro
problema). Agora estou esperando. E fico me perguntando, onde está o
problema? Por que eu não consigo ser atendido em tempo hábil e ter
meus problemas resolvidos logo? Será que a falha está nos
funcionários do posto de saúde que não sabem informar os
procedimentos? Será que falta uma gerência mais proativa? Dentre
todas essas coisas, eu pedi uma consulta piscológica e a
informante/recepcionista do posto disse que eu teria que ir em busca
do piscólogo por conta própria. Um mês depois eu fui informado por
outro funcionário que existe uma sala específica no posto para
tratar dos assuntos com os piscólogos (WHAT?!). A informante não
sabia disso? Ou ela agiu de má fé? Enfim, nota-se uma falha absurda
no sistema, no serviço e nos servidores. Todo o projeto de posto do
saúde está comprometido a não oferecer o serviço devidamente por
falhas nos setores essenciais para o andamento do negócio. Nas
entrelinhas aconteceram outras coisas absurdas que não vou comentar
aqui.
A
cultura do serviço relaxado
Logo
que ouvimos falar dos absurdos nos serviços públicos, logo
apontamos o dedo para o governo e acusamos os gestores mas se
pararmos pra pensar, nem sempre o problema é do governo. A verba é
levantada indivudualmente para cada ponto de serviço. Todo mundo
recebe seu salário. Temos médicos bem pagos e temos os materiáis
mínimos necessário para atendimento ao público. Mesmo assim
encontramos falhas que não precisavam estar acontecendo.
O
que está havendo com estes servidores? Falta conciência social. Nós
não precisamos de um chefe puxando no nosso pé, humilhando e
fazendo trabalhar como máquinas. Precisamos ter conciência da
importância do serviço e a diferença que o serviço faz na
sociedade.
Claro
que temos grandes falhas no orçamento investido, mas, se esta
cultura pobre do serviço público persistir, não haverá
investimento que surtirá efeito. Esta cultura está privando as
pessoas mais humildes de exercerem seus direitos como cidadãos. Esta
cultura está tirando a dignidade da parcela mais pobre da sociedade
e isto também contribui alargar ainda mais as diferenças sociais.
O
que você pensa sobre isso? Devemos culpar o servidor de forma
individual ou você acha que algo deveria mudar pra que essa cultura
fosse desintegrada? Me mostre sua opinição comentando aí em baixo.
;-)
Até
o momento da publicação deste texto, eu ainda não fiz nenhum dos
exames. Não sei em que ponto está estagnado. Também não posso
fazer nada. Não tenho aquele conhecido para “desenrolar” as
coisas pra mim no posto de saúde(Sim, muitas vezes só funciona se
tiver alguém pra acelerar as coisas pra você). Essa demora já
acarretou diversos atrasos na minha vida mas eu fico pensando
naquelas pessoas que tem alguma doença grave guardada e quando for
descobrir já será tarde de mais. Esta cultura no serviço público
também pode matar.